Em 2019, uma música gravada num quarto de apartamento em Osasco entrou nas paradas musicais de Portugal, Espanha e Alemanha. O produtor tinha 22 anos, nunca tinha saído do Brasil e gravou o beat num computador que comprou parcelado. Essa história, que parecia improvável há dez anos, hoje se repete com frequência crescente.

A música popular brasileira está vivendo um momento de expansão global sem precedentes. Não é a primeira vez que o Brasil exporta cultura musical — a bossa nova conquistou o mundo nos anos 1960, o axé e o pagode tiveram momentos de visibilidade internacional nos anos 1990. Mas o que está acontecendo agora é diferente em escala e em mecanismo.

O papel das plataformas digitais

O Spotify, o YouTube e o TikTok nivelaram o campo de jogo de uma forma que as gravadoras nunca fizeram. Um produtor de funk do Rio de Janeiro e um artista de trap de São Paulo têm, em teoria, o mesmo acesso ao mercado global que uma major label com décadas de história. Na prática, ainda há barreiras — mas elas são muito menores do que eram.

Segundo dados do Spotify divulgados no início de 2025, o Brasil é o quinto país com mais streams globais, e artistas brasileiros estão entre os mais ouvidos em países como Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde — o que faz sentido pela língua compartilhada — mas também em países como França, Japão e Estados Unidos, onde a língua não é barreira.

"O funk não pediu licença para sair do Brasil. Ele simplesmente foi. E quando chegou lá fora, as pessoas gostaram porque a batida fala uma língua universal."
— DJ Marlboro, pioneiro do funk carioca

Samba: a reinvenção de um clássico

Enquanto o funk e o trap conquistam os jovens, o samba está passando por uma reinvenção silenciosa que está atraindo atenção internacional de um jeito diferente. Artistas como Criolo, Elza Soares (em memória) e uma nova geração de sambistas cariocas e paulistanos estão misturando o gênero com jazz, soul e eletrônica de maneiras que interessam a curadores e festivais europeus.

O Festival Montreux, na Suíça, que por décadas foi sinônimo de jazz americano, teve em 2024 uma programação com presença brasileira significativa. O mesmo aconteceu no Womad, festival britânico de música do mundo, e no Primavera Sound de Barcelona.

O que fica para trás

Mas há uma tensão nessa história de sucesso que merece atenção. Quando a música periférica brasileira se globaliza, quem se beneficia financeiramente? Nem sempre é o artista que a criou.

Camila, produtora musical de 27 anos que trabalha com artistas de funk em São Paulo, explica: "Você tem um artista que faz sucesso no TikTok, a música viraliza no exterior, e aí vem uma gravadora americana oferecendo contrato. O artista assina porque não tem outra opção, e aí perde o controle da própria obra."

Essa dinâmica não é nova — aconteceu com o reggae jamaicano, com o hip-hop americano, com o afrobeat nigeriano. A música periférica é descoberta, comercializada e, muitas vezes, o criador original fica com uma fatia pequena do que gerou.

Uma nova geração de artistas conscientes

Mas há sinais de mudança. Uma nova geração de artistas brasileiros está chegando ao mercado global com mais consciência sobre direitos autorais, contratos e propriedade intelectual. Coletivos como o Laboratório Fantasma, em São Paulo, e a Boca de Lobo, no Rio, funcionam como incubadoras que preparam artistas para navegar nesse mercado sem abrir mão do controle criativo.

O resultado é uma música brasileira que está chegando ao mundo cada vez mais nos seus próprios termos — com a batida que ela quer, no idioma que ela escolhe, com a narrativa que ela decide contar. Isso é novo. E é importante.