Toda semana, Fernanda Ribeiro, 41 anos, faz o mesmo ritual: antes de ir ao supermercado, senta à mesa da cozinha com uma caneta e um caderno de espiral e anota o que precisa comprar. Depois, olha para a lista e começa a riscar. "Primeiro vai o que é supérfluo. Depois vai o que dá para substituir. O que sobra é o que a gente compra."
Fernanda mora em Fortaleza com o marido e dois filhos. Ela trabalha como auxiliar administrativa em uma empresa de logística e ganha dois salários mínimos. O marido, eletricista autônomo, tem renda variável — às vezes mais, às vezes menos. Juntos, somam em torno de quatro mil e quinhentos reais por mês. Parece razoável, até você começar a fazer as contas.
As contas que não fecham
Aluguel: R$ 1.200. Condomínio e água: R$ 280. Luz: R$ 180 (subiu muito nos últimos meses, ela explica). Internet e celular: R$ 150. Escola particular dos filhos — porque a pública do bairro "não tem condições", segundo ela: R$ 600. Alimentação: R$ 1.400. Transporte: R$ 320. Sobra menos de R$ 400 para imprevistos, saúde, lazer e poupança.
"Poupança é palavra bonita. A gente não poupa. A gente sobrevive", diz Fernanda, sem amargura, com a objetividade de quem já fez as pazes com a realidade.
A história de Fernanda não é exceção. Segundo dados do IBGE, mais de 60% das famílias brasileiras vivem com renda per capita de até dois salários mínimos. Para essas famílias, a inflação não é um número abstrato divulgado pelo banco central — é a diferença entre comprar carne ou não comprar.
O que a inflação faz com quem tem menos
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, é calculado com base em uma cesta de consumo que representa a média da população urbana brasileira. Mas essa média esconde disparidades enormes. Famílias de baixa renda gastam proporcionalmente muito mais com alimentação e transporte — justamente os itens que mais subiram nos últimos anos.
Uma pesquisa do DIEESE publicada no início deste ano mostrou que o salário mínimo necessário para cobrir as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas seria de R$ 7.200 — mais de três vezes o valor atual, de R$ 1.518. A diferença entre o mínimo real e o mínimo necessário nunca foi tão grande desde 2010.
"Quando o preço do feijão sobe, o economista fala em 'pressão inflacionária'. Pra mim, significa que meu filho vai comer menos feijão essa semana."
— Fernanda Ribeiro, auxiliar administrativa, Fortaleza
Estratégias de sobrevivência
Quem vive com renda limitada desenvolve estratégias de consumo que economistas chamam de "substituição de cesta" — na prática, significa trocar carne bovina por frango, frango por ovo, e ovo por feijão. Quando o feijão sobe, a criatividade precisa ser ainda maior.
No Rio de Janeiro, Seu Antônio, 58 anos, aposentado pelo INSS, recebe um salário mínimo. Mora sozinho em um quarto alugado no subúrbio carioca e há dois anos não come carne vermelha. "Não é opção. É necessidade", ele explica, com uma clareza que dispensa comentários.
Em Belém, Rosângela, 29 anos, mãe de três filhos, descobriu que comprar em feiras livres no final do dia, quando os feirantes baixam os preços para não levar mercadoria de volta, pode economizar até 40% na conta de alimentação. "Aprendi com a minha mãe. Ela aprendeu com a avó dela. É sabedoria de pobre."
O que dizem os especialistas
Para a economista Patrícia Melo, professora da Universidade Federal do Ceará, o problema não é apenas conjuntural. "O Brasil tem uma estrutura de distribuição de renda que é historicamente concentrada. A inflação agrava esse problema, mas não é a causa. A causa é estrutural."
Ela aponta que políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, têm papel importante, mas insuficiente. "Você não resolve desigualdade estrutural com transferência. Você precisa de emprego de qualidade, educação de qualidade, saúde de qualidade. São investimentos de longo prazo que nenhum governo quer fazer porque não dão voto no curto prazo."
Fernanda, em Fortaleza, não conhece os dados do DIEESE nem as teorias da professora Patrícia. Mas quando perguntada o que mudaria em sua vida se o salário mínimo dobrasse, ela responde sem hesitar: "Eu pararia de riscar coisas da lista."